Levei mais de dois meses para me livrar da dor no cotovelo. Aqui está o que aprendi sobre a lesão mais famosa (e mais mal compreendida) do tênis.
Aquela dor que eu não tinha visto vir
Eu já esperava dor no joelho, talvez uma fisgada nas costas depois de um jogo mais puxado. O que eu não esperava era sentir uma pontada na parte de fora do cotovelo toda vez que eu segurava uma xícara de café ou apertava a mão de alguém.
Foi assim que a epicondilite lateral entrou na minha rotina — sem avisar, e sem sair rápido. Se você está lendo isso porque sentiu algo parecido depois de um treino, um jogo mais longo ou até depois de trocar de raquete, este artigo é para você. Vou contar como identifiquei, o que tentei, o que realmente funcionou e quanto tempo levou até eu voltar a jogar sem dor.
O que é epicondilite lateral (o famoso “cotovelo de tenista”)
A epicondilite lateral é uma lesão por sobrecarga nos tendões que ficam na parte externa do cotovelo, principalmente no tendão do extensor radial curto do carpo — aquele que ajuda a estender o punho. Quando esse tendão é exigido repetidamente além do que aguenta, ele desenvolve pequenas microlesões, e é isso que gera a dor.
Apesar do apelido, a maioria das pessoas com essa lesão nunca pegou numa raquete. Mas entre quem joga tênis, ela é comum demais para ser ignorada, principalmente depois dos 30, quando a recuperação dos tecidos já não é tão rápida quanto era aos 20.
Os sintomas que eu senti (e que você pode estar sentindo agora)
No meu caso, a evolução foi gradual:
- Dor na parte externa do cotovelo, que às vezes irradiava para o antebraço
- Dor ao segurar objetos simples — xícara, garrafa, sacola de compras
- Perda perceptível de força ao apertar a mão de alguém
- No início, a dor sumia com repouso; depois de um tempo, passou a incomodar mesmo fora da quadra
- Um ponto bem específico e sensível quando eu pressionava o osso do cotovelo
Se você reconhece dois ou três desses sinais, vale a pena parar de “empurrar com a barriga” e procurar um ortopedista ou fisioterapeuta. Eu mesmo demorei mais do que deveria para levar a sério, e isso provavelmente contribuiu para o tempo de recuperação.
Por que isso acontece tanto depois dos 30
Não é coincidência que essa lesão apareça com mais frequência em quem começou ou voltou a jogar tênis depois dos 30. Alguns fatores se somam:
- Menos força e flexibilidade de base no antebraço e no punho, especialmente para quem ficou anos sem praticar nenhum esporte com esse tipo de movimento.
- Técnica ainda em formação — é muito comum um iniciante golpear o backhand ou até o forehand “com o braço”, transferindo carga excessiva para o cotovelo em vez de usar o corpo todo.
- Equipamento inadequado: raquete pesada demais, encordoamento muito tensionado ou cabo com grip errado sobrecarregam o tendão a cada golpe.
- Progressão rápida demais: aumentar de repente o volume de jogo (duas, três vezes por semana) sem dar tempo de adaptação ao corpo.
- Tecidos que recuperam mais devagar: depois dos 30, e principalmente depois dos 40, os tendões cicatrizam com menos velocidade, então uma pequena sobrecarga vira lesão com mais facilidade.
Como foi minha recuperação, passo a passo
Aqui vai o resumo honesto do que fiz ao longo de mais de dois meses — incluindo os erros.
1. Parar de ignorar a dor (o erro que mais atrasou tudo)
Nas primeiras semanas, joguei “aliviando” o braço, tomando anti-inflamatório antes dos jogos para conseguir continuar. Isso não trata a causa, só mascara o sintoma — e no fim das contas, prolonguei a lesão em vez de encurtá-la. Se eu pudesse voltar atrás, teria parado de jogar assim que a dor apareceu, em vez de duas ou três semanas depois.
2. Repouso ativo, não repouso total
Parar de jogar tênis foi necessário, mas ficar parado por completo não ajudou tanto quanto eu esperava. O que fez diferença foi um repouso ativo: evitar os movimentos que reproduziam a dor (segurar objetos com força, girar o punho) enquanto seguia com atividades que não sobrecarregavam o cotovelo.
3. Gelo e controle da dor nos primeiros dias
Gelo na região por 15-20 minutos, algumas vezes ao dia, ajudou a controlar a fase mais aguda. Isso não resolve a lesão sozinho, mas torna o dia a dia mais suportável enquanto o resto do tratamento começa a fazer efeito.
Produto que usei: Bolsa/compressa de gel reutilizável — prática porque molda ao formato do cotovelo e pode ir no freezer entre um uso e outro.
4. Fisioterapia foi o que realmente mudou o jogo
O ponto de virada da minha recuperação foi começar fisioterapia orientada, com foco em:
- Alongamento dos músculos extensores do antebraço
- Fortalecimento excêntrico do punho (o exercício que os fisioterapeutas mais recomendam para essa lesão especificamente)
- Liberação miofascial na região do antebraço e cotovelo
Não é rápido, e no começo até dói um pouco mais. Mas foi o fortalecimento excêntrico, feito com constância, que trouxe o resultado mais consistente para mim.
Produto que usei: Faixa elástica de resistência / theraband — usei nos dias sem fisioterapeuta para manter a constância dos exercícios de fortalecimento em casa.
5. Órtese de contraforça (aquela “pulseira” abaixo do cotovelo)
Usar uma órtese de contraforça no antebraço, um pouco abaixo do cotovelo, ajudou a redistribuir a carga para longe do tendão machucado nas primeiras semanas de volta às atividades leves. Não é uma solução definitiva, mas é um bom aliado enquanto o tendão ainda está fragilizado.
Produto que usei: Órtese de contraforça para cotovelo de tenista — essa foi a que o fisioterapeuta recomendou e que usei nas primeiras semanas de volta à quadra.
6. Revisão do equipamento antes de voltar a jogar
Antes de voltar à quadra, revisei três coisas na raquete:
- Peso: troquei para uma raquete um pouco mais pesada e com melhor absorção de impacto (raquetes muito leves vibram mais e transferem mais carga para o braço)
- Tensão do cordame: baixei a tensão, o que reduz o impacto transmitido ao braço a cada rebatida
- Grip: ajustei o tamanho do cabo, porque um grip errado força a mão a se fechar com mais força do que deveria
Produtos que usei/recomendo:
7. Volta gradual, com técnica revisada
Quando voltei, não foi direto para um set completo. Comecei com peteca leve, sem força, prestando atenção especial à técnica do backhand — que, no meu caso, era onde eu mais “empurrava” o golpe só com o braço em vez de usar o giro do tronco.
Quanto tempo demora para curar epicondilite lateral?
Na minha experiência, e de acordo com o que os especialistas explicam, essa é uma lesão de recuperação lenta:
- Casos leves, tratados cedo: algumas semanas
- Casos moderados (como o meu): geralmente de 2 a 3 meses
- Casos mais negligenciados ou recorrentes: podem levar 6 meses ou mais, e uma pequena parte dos pacientes chega a precisar de tratamento cirúrgico
O fator que mais influencia esse prazo, na minha experiência, é simples: quanto antes você reconhece o problema e para de “jogar com dor”, mais rápido é o caminho de volta.
Como prevenir a epicondilite lateral (o que eu faço agora)
Depois de passar por isso, mudei alguns hábitos que mantenho até hoje:
- Aqueço o antebraço e o punho antes de qualquer treino, com alongamentos específicos para os extensores
- Fortaleço o antebraço duas vezes por semana, mesmo fora de temporada de lesão
- Revejo o encordoamento da raquete periodicamente, em vez de deixar a corda “envelhecer” com tensão alta demais
- Presto atenção em sinais pequenos: qualquer desconforto leve no cotovelo agora é motivo para eu reduzir a carga do treino, não para ignorar
- Trabalho a técnica com um professor de vez em quando, principalmente no backhand, para garantir que o golpe venha do corpo e não só do braço
Perguntas frequentes sobre epicondilite lateral no tênis
Epicondilite lateral é a mesma coisa que cotovelo de tenista? Sim. Epicondilite lateral é o nome médico; cotovelo de tenista é o nome popular da mesma condição, embora ela afete muito mais gente fora das quadras do que dentro delas.
Posso continuar jogando tênis com epicondilite lateral? Jogar com dor tende a piorar e prolongar a lesão. O ideal é pausar as atividades que reproduzem a dor até receber orientação de um profissional, e voltar de forma gradual depois.
Fortalecimento excêntrico dói? É normal? Um desconforto leve durante os exercícios é esperado nessa fase de reabilitação, mas dor aguda não é. A orientação de um fisioterapeuta é importante para calibrar a carga certa.
Preciso trocar de raquete depois de ter epicondilite lateral? Nem sempre é preciso trocar, mas vale revisar peso, tensão do cordame e tamanho do grip — pequenos ajustes que reduzem bastante a carga transmitida ao cotovelo.
Se você está no início dessa lesão agora
Se a dor no seu cotovelo começou há pouco tempo, o melhor conselho que posso dar é: não espere ela “passar sozinha enquanto você continua jogando”. Procure um ortopedista ou fisioterapeuta cedo, ajuste o que for preciso no seu equipamento e na sua técnica, e trate o repouso como parte do treino, não como um obstáculo a ele.
Se você já passou por isso ou está passando agora, conta pra mim nos comentários como foi a sua experiência — sempre ajuda saber que não estamos sozinhos nessa fase de “aprender a jogar de novo, com o corpo que temos hoje”.
Este artigo é baseado em experiência pessoal e não substitui avaliação médica. Procure um ortopedista ou fisioterapeuta para diagnóstico e tratamento adequados ao seu caso.